O corretor

Como oportunidades de experimentos mentais, histórias de ficção científica localizadas no cosmo que se baseiam em pressupostos econonômicos gralmente não trazem boas novidades. Ou haverá uma economia comunista na qual outros ativos serão considerados pela falta de escassez, ou o capitalismo corporativista estará mantido, mas em intervenções cujas escalas ficarão cada vez maiores. Aqui minha colaboração ao assunto, em uma alegoria dos processos de gentrificação: há planetas a serem comprados por x para serem vendidos por y, mas as condições de permissão são inusitadas, algumas vezes quase surreais. Se nos tornamos insensíveis ao comércio, ele não será insensível a nossa permanência. Enfim, a aventura do corretor imobiliário é irônica pois os planetas não ficam parados e as regras sempre mudam conforme os interesses dos donos do jogo. [>]

Gaiares

Histórias de viagem no tempo são encantadoras porque transparecem laços que, quando elegantemente costurados, dão um nó em nossas mentes expectativas. Somos muito espertos para nos deslocar nas três dimensões, mas quando acrescentamos uma nova, temporal e bidirecionada, apenas podemos seguir em frente, usando a memória histórica como marcação das encruzilhadas que se amalgamaram no que somos e onde estamos na atualidade. No texto, um detetive e um inusitado colaborator tentam desvendar um mistério temporal cuja solução é um ciclo paradoxal comum ao tema, motivando seus personagens a cumprirem agendas que foram determinadas mas não são determinantes. Pois pensemos: se há arbítrio, quem o decidiu antes de nós? E se não há, o que é o destino? [>]

Munição

Contemplando as periferias de países em desenvolvimento, vemos que o processo de expulsão e marginalização desaba sobre si mesmo, criando espirais de controle e disputa que refletem no micro as mesmas regras do macro. No conto, surgido de uma indagação de como seria um controle panóptico de vigia também juiz e carrasco, duas atiradoras acabam presas em uma torre assediada. O suspense entre a situação e o futuro imediato é também uma espiral que faz refletir sobre quem é agente é quem é coagido, pois o caos social da atualidade é algo que tentam nos fazer ignorar, mas é igualmente presente e panorâmico. [>]

Após o desmoronamento da Antena

Verdade dita, todo o processo de comunicação, analógica ou digital, é um meandro, um intermédio entre mentes e suas intenções. Acredito que o próximo paradigma de mundos virtuais, não venha da eletrônica, mas da biologia (melhor, do encontro entre as duas e outras áreas do conhecimento). Afinal, já temos nossas virtualidades portáteis dentro de nossas cabeças ambulantes. O que nos falta, somente, é uma interface mais direta, coisa que não deve tardar. E quando isso acontecer, os protocolos deverão ser organizados e participados de forma tal, que o sonho da comunicação mental e instantânea não se torne nosso pior pesadelo: que alguém ou grupo nos sequestre de nós mesmos. [>]

Discos por toda parte...

Nas narrativas de invasão alienígena, há sempre o embate entre o novo e o antigo, o futuro e o passado, o poder e a submissão. Geralmente, me chama a atenção que a história humana, tão vasta e crítica, tenha como palco para a interpretação do tema somente a sua contemporaneidade. Por isso, datei o encontro entre civilizações no auge de nossa ascensão modernista, como gesto simbólico para bifurcar as possibilidade entre invasores e invadidos, uma vez que a miscigenação será sempre, para qualquer dos povos, um destino comum. [>]

Deslocamento

O imediatismo em que vivemos enquanto sociedade em aceleração, nos convida a indagar sobre a descartabilidade das impressões e, de modo mais simples, de como nos tratamos e nos reconhecemos individualmente. No texto, busquei considerar a premissa de modo mais técnico do que poético, criando uma elipse entre o desejo e a situação do personagem, que descobre da pior maneira possível como certos princípios funcionam à revelia de seus participantes. Aliás, por que tanta pressa? [>]

Vladmir

Narrativas distópicas são interessantes não apenas pelo ensaio criativo de como todas as coisas chegam ao término, mas também porque inauguram obrigatoriamente a passagem de um estado para outro. É uma forma de purificação, ampla e cíclica, tão genética como as mitologias de criação. No texto, um trio testemunha o fim dos tempos de modo angustiado pois o gigantismo do fim eclipsa qualquer protagonismo. Ainda assim, a situação enfrenteada pelo protagonista torna o espetáculo igualmente inusitado como familiar. Por que será? [>]

1984

A Guerra Fria inspirou situações ficcionais que tinham como mérito a exploração de suas sombras. O período ficou patente por conflitos mais hipotéticos que efetivos, e talvez por isso, seja atraente para contextualizar narrativas que lidam com a psique, o controle e a dubiedade. Zarza é uma historieta antiga, na qual busquei resgatar a dicotomia entre o misticismo e a ciência, pois para os receios distópicos que promovem, são irmãos gêmeos que competem por sua época. [>]

O plano

Há um crescente culto de celebridades, o que tem muito de patético e pouco de lógico, se pensarmos no bem coletivo que promovem. Algumas pessoas, simplesmente, são conhecidas por um grande número de outras pessoas, e nesse sentido, são disputadas como ativos valiosos por marcas que se baseiam na construção de estilos de vida igualmente mercantilistas. Agora pensamos: quando um único indivíduo for famoso para bilhões de pessoas, o que deverá fazer para manter-se célebre frente à tamanha competitividade? [>]