Guix

Máquina de Morar

Nossas casas, nossas cavernas. Tudo que temos, lá se encontra, como uma mistura de baú e carruagem sem rodas que nos leva para lugar nenhum – além talvez do futuro em segurança suposta dos cercos imaginários ou ao passado na atenção a perversão do tempo, que tudo modifica e escangalha. A intangibilidade é maior quando assumimos que dentro de nossas casas temos outras casas, ou receptáculos de vivências, as quais competem por nossa atenção. Enquanto nossas plantinhas morrem esquecidas por falta de sol e água, gastamos dias e noites dedicados ao plantio virtual de amizades e favoritações de fantasias que não são nossas. Tenho por esse conto especial predileção: ao mesmo pelo suspense quanto ao que fez Pandora ao final e pela realização de como cada vez mais somos mordomos do que temos, como nosso corpo sendo a casa que cobre nossas cascas. [>]

Tentativa de convencimento

Um dos principais benefícios advindos da digitalização da informação foi podermos considerar a leitura dos fenômenos além do espectro de suas ocorrências simultâneas, mas especialmente, como pontualidades capazes de serem armazenadas e recuperadas. Supondo nossas vidas intervalos, sequências de fenômenos, pensemos: bom seria se pudéssemos desconsiderar as consequências e responsabilidades e tomar cada aventura como um ensaio? Mas sendo as responsabilidades as fundações do aprendizado, aprenderíamos da mesma forma nas próprias displiscências? Jadne toma sua decisão, ao final. Mas faríamos o mesmo que ela? [>]

Memória em apresentação

Quando falamos de memória, pensamos em sua aplicação prática de precisão reconstrutiva, o que não é ao mesmo tempo nem uma verdade e nem um desejo. Somos biologicamente preparados para temperar nossas experiências, vinculando no registro, estímulos com sensações. A memória então, de ativo investido, estaria mais para um lamento, uma imponderância… E quem dentre nós a possuísse sem limites, estaria fadado aos cantos da desgraça. Pode não ser esse o destino de Jonas, mas não há muito a se comemorar no êxito de seu resgate. Entre a discussão da bioética e da finalidade dos corpos enquanto vagos a serem preenchidos, não somos nós também repositórios ambulantes de qualquer coisa para o que quer que seja? [>]

Reação contra a Chegada

Imaginando entidades alienígenas consideramos as mesmas conforme morais humanas, e eventuais contatos, em duas polarizadas possibilidades: ou virão em paz compartilhando conhecimento ancestral, ou virão em guerra buscando nosso extermínio. E se essa a possibilidade, supomos um poderio bélico superior, e não uma postura mais quantitativa do que qualitativa. Ou melhor dizendo, uma abordagem mais ruidosa que silenciosa, e assim nos esquecemos de quando nos lançamos contra os insetos, o fazemos com interesses para eles completamente ignorados. No conto a questão de uma busca por uma visão esclarecedora aparece em diversas pistas e por diversos signos. Buscamos a verdade no olhar, e talvez esse seja o grande problema que teremos quando nos descobrirmos na iminência de uma chegada semelhante e igualmente avassaladora. [>]

O corretor

Como oportunidades de experimentos mentais, histórias de ficção científica localizadas no cosmo que se baseiam em pressupostos econonômicos gralmente não trazem boas novidades. Ou haverá uma economia comunista na qual outros ativos serão considerados pela falta de escassez, ou o capitalismo corporativista estará mantido, mas em intervenções cujas escalas ficarão cada vez maiores. Aqui minha colaboração ao assunto, em uma alegoria dos processos de gentrificação: há planetas a serem comprados por x para serem vendidos por y, mas as condições de permissão são inusitadas, algumas vezes quase surreais. Se nos tornamos insensíveis ao comércio, ele não será insensível a nossa permanência. Enfim, a aventura do corretor imobiliário é irônica pois os planetas não ficam parados e as regras sempre mudam conforme os interesses dos donos do jogo. [>]

Gaiares

Histórias de viagem no tempo são encantadoras porque transparecem laços que, quando elegantemente costurados, dão um nó em nossas mentes expectativas. Somos muito espertos para nos deslocar nas três dimensões, mas quando acrescentamos uma nova, temporal e bidirecionada, apenas podemos seguir em frente, usando a memória histórica como marcação das encruzilhadas que se amalgamaram no que somos e onde estamos na atualidade. No texto, um detetive e um inusitado colaborador tentam desvendar um mistério temporal cuja solução é um ciclo paradoxal comum ao tema, motivando seus personagens a cumprirem agendas que foram determinadas mas não são determinantes. Pois pensemos: se há arbítrio, quem o decidiu antes de nós? E se não há, o que é o destino? [>]

Munição

Contemplando as periferias de países em desenvolvimento, vemos que o processo de expulsão e marginalização desaba sobre si mesmo, criando espirais de controle e disputa que refletem no micro as mesmas regras do macro. No conto, surgido de uma indagação de como seria um controle panóptico de vigia também juiz e carrasco, duas atiradoras acabam presas em uma torre assediada. O suspense entre a situação e o futuro imediato é também uma espiral que faz refletir sobre quem é agente é quem é coagido, pois o caos social da atualidade é algo que tentam nos fazer ignorar, mas é igualmente presente e panorâmico. [>]