bibliografia

Depois de outro acesso

Órteses são dispositivos comuns e serão ainda mais, tão logo os protocolos de comunicação permitam diferenças substanciais de performance entre os que as têm e os que não. Ainda assim, acreditamos que uma jovem paratleta meditar ter ambas as suas pernas artificiais para melhorar sua performance é uma decisão bem diferente de escolher entre lentes de contato ou um par de óculos para coibir nossa miopia. A ficção científica elabora que o todo é maior que a soma das partes, desde Shelley e seus Franskenteins (o monstro e o outro); de modo que biônicos e cyborgs já não são promessas, mas realidades imediatas: a questão que se apresenta não mais diz respeito ao que se controla, seja de carne ou de plástico, mas quem controla? Onde está você, dentro ou fora dessa roupa de astronauta feita de proteínas, que te permite respirar o oxigênio venenoso do planeta nem ser dissolvido em contato com a água? [>]

O que está acontecendo, Zato?

Ao microscópico, nossa mais extraordinária fronteira.

Assim como Zato se pergunta ao seguir para o laboratório em hora tão extraordinária, nos perguntamos o quanto ainda há por descobrir no informativo reino do minúsculo. Atualmente, algumas experiência bem sucedidas conseguiram guardar imagens e vídeos no DNA de bactérias E.coli com uma precisão de 90%. No conto, partimos da hipótese de que importantes algoritmos já estão lá, aguardando pacientemente pelo momento oportuno de se fazerem irremediavelmente presentes. [>]

Máquina de Morar

Nossas casas, nossas cavernas.
Tudo que temos, lá se encontra, como uma mistura de baú e carruagem sem rodas que nos leva para lugar nenhum – além talvez do futuro em segurança suposta dos cercos imaginários ou ao passado na atenção a perversão do tempo, que tudo modifica e escangalha. A intangibilidade é maior quando assumimos que dentro de nossas casas temos outras casas, ou receptáculos de vivências, as quais competem por nossa atenção. Enquanto nossas plantinhas morrem esquecidas por falta de sol e água, gastamos dias e noites dedicados ao plantio virtual de amizades e favoritações de fantasias que não são nossas. Tenho por esse conto especial predileção: ao mesmo pelo suspense quanto ao que fez Pandora ao final e pela realização de como cada vez mais somos mordomos do que temos, como nosso corpo sendo a casa que cobre nossas cascas. [>]

Tentativa de convencimento

Um dos principais benefícios advindos da digitalização da informação foi podermos considerar a leitura dos fenômenos além do espectro de suas ocorrências simultâneas, mas especialmente, como pontualidades capazes de serem armazenadas e recuperadas. Supondo nossas vidas intervalos, sequências de fenômenos, pensemos: bom seria se pudéssemos desconsiderar as consequências e responsabilidades e tomar cada aventura como um ensaio? Mas sendo as responsabilidades as fundações do aprendizado, aprenderíamos da mesma forma nas próprias displiscências? Jadne toma sua decisão, ao final. Mas faríamos o mesmo que ela? [>]

Memória em apresentação

Quando falamos de memória, pensamos em sua aplicação prática de precisão reconstrutiva, o que não é ao mesmo tempo nem uma verdade e nem um desejo. Somos biologicamente preparados para temperar nossas experiências, vinculando no registro, estímulos com sensações. A memória então, de ativo investido, estaria mais para um lamento, uma imponderância… E quem dentre nós a possuísse sem limites, estaria fadado aos cantos da desgraça. Pode não ser esse o destino de Jonas, mas não há muito a se comemorar no êxito de seu resgate. Entre a discussão da bioética e da finalidade dos corpos enquanto vagos a serem preenchidos, não somos nós também repositórios ambulantes de qualquer coisa para o que quer que seja? [>]

Reação contra a Chegada

Imaginando entidades alienígenas consideramos as mesmas conforme morais humanas, e eventuais contatos, em duas polarizadas possibilidades: ou virão em paz compartilhando conhecimento ancestral, ou virão em guerra buscando nosso extermínio. E se essa a possibilidade, supomos um poderio bélico superior, e não uma postura mais quantitativa do que qualitativa. Ou melhor dizendo, uma abordagem mais ruidosa que silenciosa, e assim nos esquecemos de quando nos lançamos contra os insetos, o fazemos com interesses para eles completamente ignorados. No conto a questão de uma busca por uma visão esclarecedora aparece em diversas pistas e por diversos signos. Buscamos a verdade no olhar, e talvez esse seja o grande problema que teremos quando nos descobrirmos na iminência de uma chegada semelhante e igualmente avassaladora. [>]

O corretor

Como oportunidades de experimentos mentais, histórias de ficção científica localizadas no cosmo que se baseiam em pressupostos econonômicos gralmente não trazem boas novidades. Ou haverá uma economia comunista na qual outros ativos serão considerados pela falta de escassez, ou o capitalismo corporativista estará mantido, mas em intervenções cujas escalas ficarão cada vez maiores. Aqui minha colaboração ao assunto, em uma alegoria dos processos de gentrificação: há planetas a serem comprados por x para serem vendidos por y, mas as condições de permissão são inusitadas, algumas vezes quase surreais. Se nos tornamos insensíveis ao comércio, ele não será insensível a nossa permanência. Enfim, a aventura do corretor imobiliário é irônica pois os planetas não ficam parados e as regras sempre mudam conforme os interesses dos donos do jogo. [>]