O corretor

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Tamanho poder não o assustava. Fora desde muito cedo treinado filosoficamente por seus familiantes para que a realidade do seu crescente poder não ultrapassasse as capacidades de sua ínfima e finita humanidade. E mesmo como dono supremo da Lurra-Kiribil Incorporações, com poder para comprar, vender e alugar planetas inteiros para as mais variadas finalidades, sua humanidade era o único templo que considerava sagrado. “Só podia comer de um único prato de comida por vez e só podia defecar em uma única latrina por vez.” Tanto assim filosofava, que se recusava a ter clonóides de diluição de responsabilidades. Tanto assim filosofava, que se recusava a encharcar suas células com misturas que lhe conferissem poderes excepcionais, à custa de uma vida ainda mais acelerada que a média da grande maioria de pessoas da galáxia.

Não. Não ele. Chegou ao topo com somente quarenta e seis cromossomos, um tino para negócios nunca antes percebido entre seus pares de mercado e justamente por assumir postura tão inaudita, orgânica diriam, conseguia pensar e agir fora de quaisquer perspectivas automáticas antecipatórias. Era ele o ponto fora da curva, vendendo quando todos intencionavam comprar e comprando quando todos consideravam vender. Incapazes de prever suas jogadas, o mercado astral superaquecido ficava em suspenso, os executivos arrancando seus tentáculos (moda então) e os outros corretores cometendo barbaridades jurídicas que os lançavam em redemoinhos profissionais de fama e autodestruição.

(Trecho de Jogo de Trilhões, Duodecimado, 2016)