Reação contra a Chegada

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A ideia de subir a torre para transmissão da mensagem não partira de Plus, mas de Balqer. Plus era sua mais confiável comandada e sim, sabia dos riscos envolvidos na importante missão. A escolha original de Balqer, quando recebeu a confirmação da tese do garoto pelos optometristas que chegaram do sul, era despachar a mensagem por Moema, um antigo desafeto, que do terraço, acompanhou com um par de binóculos militares o corpo de Plus ser erguido pelo balão, para além da estrutura da torre. Mas Moema não sabia operar o equipamento necessário para transmitir a mensagem e nem era ágil em escalar torres: E assim pensado em sua imaginária culpa, meneou a cabeça, pois nada poderia fazer para ajudar a irmã, que seria levada para além do horizonte, pelo balão automático. Secando as lágrimas nas costas das luvas, guardou os binóculos em sua mochila e fugiu para o subterrâneo, onde todos foram morar desde a Chegada.

Os optometristas vieram do sul em bicicletas como os muitos outros refugiados, mas somente dois deles chegaram vivos, identificados positivamente pelo garoto de onze anos de nome Ypsilon. Ao que parece, fora o “garoto ensanguentado” (como era conhecido entre os guardas) quem primeiro constatou o ponto fraco do inimigo, mas por algum tempo se viu impossibilitado de comunicar sua descoberta à Reação, pelo fato de ser cego e ter perdido o pai em uma confusão durante a sua chegada na capital. A sua história é complicada, até certo ponto bem irônica, tão irônica quanto o fato de sermos nós os responsáveis pela Chegada, enviando sinais de rádio pelo espaço em busca de outros que as pudessem receber. E receberam, conforme um enxame de muitas espaçonaves em forma de gigantescas esferas, pontiagudas como vírus de gripe, desceram sobre os centros e os campos e os mares, reclamando, aparentemente, a Terra para os seus propósitos.

(Trecho de A Cor, Trezena, 2015)