O que está acontecendo, Zato?

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A Dra. Marniah Sedna mostrou o primeiro arquivo para Zato:

– Lembra daquele algoritmo novo que estávamos terminando no simulador para geração de cenários de vida artificial para o congresso de setembro? Coloquei para rodar com os dados que Berger me mandou e a saída foi essa daqui, às 13h32 de hoje. A taxa de proliferação é bem curiosa. Mas a replicação é ainda mais curiosa.

Zato mandou imprimir a lista que conferia, incrédulo, na tela de fósforo; e a impressora pareceu ter respirado para pegar impulso e bater com as agulhas na fita entintada.

 

Queeeen queeeen queeeeeeeeeeeeeeeeeeeen quen quen quen

 

Voltou-se para a bióloga, conferindo as folhas amarrotando-as:

– Tenho isso na minha defesa sobre sequências de inteiros para criptografia. É uma sequência famosa da listinha OEIS de Sloane… Deixa eu consultar aqui – e de outro monitor aceso, tossindo, enquanto digitava no teclado bege de teclas gastas – achei: é a A104155.

– Foi no que pensei quando vi os primeiros gráficos. Arqueias são procariotas e se reproduzem de modo assexuado por fragmentação, fissão, ou gemulação; ou seja, cada indivíduo vai ter exatamente o mesmo material genético de toda a espécie, não fazem meiose. O material genético é replicado, vai para as pontas, as paredes celulares crescem e cortam a bactéria no meio e onde havia uma, agora existem duas, idênticas. Qualquer variação é mutação. E aí que veio o meu primeiro susto. Na sua mão está o resultado de t gerações. Para cada geração n da arqueia virtual, os 64 códons possíveis para as bases de timina, 1; citosina, 2; adenina, 3 e guanina, 4, reorganizaram-se…

 

111, 112, 113, 114, 121, 122, 123, 124, 131, 132, 133, 134, 141, 142, 143, 144, 211, 212, 213, 214, 221, 222, 223, 224, 231, 232, 233, 234, 241, 242, 243, 244, 311, 312, 313, 314, 321, 322, 323, 324, 331, 332, 333, 334, 341, 342, 343, 344, 411, 412, 413, 414, 421, 422, 423, 424, 431, 432, 433, 434, 441, 442, 443 e 444

 

… para que alguns indivíduos em cada geração na população possam “remontar” certa variação de arqueia “cantora” pelas atuação das enzimas de DNA polimerase. No material original, não havia o molde que todas as DNA polimerases requerem. O simulador forneceu o molde mais adequado conforme o pareamento complementar das fitas AT e GC…

– “Cantora”???

– Sim, “escute”.

Marniah abriu o arquivo e mostrou a onda gerada pela associação de frequências de determinadas arqueias em uma dada população de geração n pelo tempo de cada geração.

– Reconhece esse gráfico?

– Caramba… Caramba… Schumann?

– Exatamente, Zato. Varia, mas fica sempre em torno de 7,83Hz. Já marquei gerações com 14,3Hz, 20,8Hz, 27,3Hz e 33,8Hz. Mais absurdo, exatamente nessa ordem e nesses valores com precisão de duas casas decimais, até. É como se as arqueias, de alguma forma, se comunicassem entre si para gerar um padrão no tempo, que fossem capazes de codificar uma espécie de “hino” de endereçamento. Já pensei em tanta coisa, mas agora conversando contigo me veio essa ideia absurda. É como se as arqueias estivessem propagando uma espécie de mensagem.

(Trecho de A mensagem, e não suas consequências imediatas, Trezena, 2015)