Unidade para Copiloto, responda…

Noah ligou a estação e esperou pelas seis telas monitoras se acenderem. A máquina fez os sons característicos da súbita atividade. Ele digitou comandos nos teclados ergonômicos e estabeleceu contato com o controlador geral do território. Um trabalho de sete insones semanas: era um sistema de segurança intrigante, repleto de perigos e armadilhas. Ainda assim, mesmo com tantos obstáculos, por trinta exatos segundos, o prédio de quarenta andares seria todo seu. E durante a missão, parcela de alguns de seus sistemas de segurança. Sentia-se como uma coceira nas costas de um gigante, que por breves instantes, deixa de fazer coisas importantes para se coçar.

Apagou as luzes e se sentou diante da aparelhagem de última geração. Ajeitou o fone transmissor na perna dos óculos e verificou o relógio, estampado rubro, em uma das telas: 2:57 da madrugada de terça.

2:59.58

Nininini nininini nininini…

Um som eletrônico intermitente partiu do cronômetro. Ela acelerou a motocicleta e desceu uma rampa espiralada até o portão automático de aço.

Noah rompeu as barreiras, e arrastando ícones em suas telas enviou os códigos e comandos necessários para que o portão para o qual Unidade ia de encontro, fosse aberto por 135 centímetros – distância mais do que suficiente para que a motocicleta entrasse com a invasora. Automaticamente, deveria ocorrer um lapso no monitoramento das câmeras – que passariam a repetir as imagens gravadas minutos antes – e na rede de sensores – que seriam paralisados. E encerrando a providencial “coceira”, ocorreria uma abertura “acidental” da passagem para o outro bloco. Em vinte e sete exatos segundos, Kim deveria pegar seus brinquedos e seguir para o subsolo.

Ziiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii…

O portão de aço deslizou para a esquerda lentamente. Kim ajustou sua velocidade e guiou a moto pela entrada, rumo ao pavimento inferior, até próximo a um furgão branco. Saltou com agilidade felina da montaria que, desengonçada, caiu ruidosamente metros adiante. As luzes do estacionamento estavam acesas, dividindo o teto com encanamentos e estruturas diversas. Lembrava-se perfeitamente das instruções deixadas por seu Guia poucas horas atrás: a Ferrari vermelha estava estacionada nordeste da sua posição.

Com um golpe do cotovelo ela quebrou o vidro da janela esquerda do carro esportivo e retirou debaixo de um casaco, uma maleta de cerâmica especial capaz de manter em segredo suas ferramentas, mesmo sob a poderosa varredura de raios-x dos sensores da segurança. De posse da maleta, checou o cronômetro: sete segundos restantes. Correu para a porta vermelha, que aberta poucos centímetros, levaria ao andar abaixo pelas escadas de incêndio… Ao chegar, a mesma já começava a se fechar.

O controle do prédio, por seu copiloto, havia sido interrompido…

Nininini nininini nininini…

Noah vigiou o relógio, segundo após segundo, e quando este soou em seu apartamento pela segunda vez, soube que seus programas de invasão foram neutralizados.

O gigante havia se coçado…

O portão de aço iria se fechar novamente, as câmeras e sensores de movimento voltariam a enviar os estímulos captados para os sistemas de alerta na Sala de Perigo e a entrada para o andar inferior pelas escadas de incêndio seria novamente lacrada. Onze segundos após as considerações, os fones do rapaz irromperam a mensagem do rádio, baixa a princípio, coo um sussurro:

– Dentro…

Noah ajustou fone e microfone e falou:

– Copiloto para Unidade, responda.

– Unidade na escuta. Registre…

O Copiloto então respirou aliviado.

(Trecho de Kim?, Duodecimado, 2016)