Em Marte, química

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As brocas pararam.

Miel correu pelo passadiço em direção ao módulo de monitoramento, que espichado pelo pescoço de metal de quinze metros, lançava da plataforma os feixes de seus holofotes para o fundo do buraco, onde os três cones rotativos machucavam o solo do planeta vermelho em busca de algo que não sabiam ao certo do que se tratava.

– Achamos alguma coisa. O sistema todo parou por conta própria.

Miel virou-se, chocando seu capacete em forma de bolha com o de Lilion, que pensou trazer novidades que falavam por conta própria.

– Estou vendo, Lilion. Estou vendo. Quer dizer, não estou vendo nada. Está uma noite lá embaixo. E com essa poeira toda, mesmo nossos mais poderosos holofotes não conseguem alcançar muito além de uns poucos metros. Vamos contar com a legibilidade dos sensores até podermos ver alguma coisa com nossos próprios olhos.

Lilion aproximou-se da fronteira da plataforma com cuidado e tentou ver o que se passava no abismo. Como Miel, não conseguiu ver o que havia interrompido a comilança de terra pelo gigantesco equipamento.

– Vou imprimir o que tivermos pronto, senhor. Mas vamos ter de esperar essa poeira ser debelada para podermos conferir qualquer coisa daqui de cima.

Miel consultou números em seus portáteis: sete horas para o procedimento de limpeza atmosférica no interior do poço.

– Sssss… Vai demorar um pouco mais do que da outra vez. Vou dormir. Acorde-me quando tivermos algum vídeo lá de baixo.

– K.

(…)

Os técnicos estavam reunidos informalmente no módulo comum, conversando, rindo e bebendo do queimado café de máquina, que para todos, era o mais importante patrimônio. Eram sete ao todo, de macacões alaranjados e imundos: Lilion, Blaaz, Derq e Panglys. Dois jogavam cartas, Schgurn e Rooveri; e o último, Ftjelzon, consultava atento um livro de folhas desbeiçadas sobre economia, encostado em uma parcela das muitas tubulações que atravessavam o ambiente em certos pontos. Leigos pensariam imediatamente no interior de um antigo submarino. E de certa forma, era. Um submarino de roer o solo, submerso em tempestades de poeira e detritos arremessados ao céu.

Miel chegou coçando a barriga proeminente e perguntou do café. Pegou um dos copinhos usados, lançou no chão o conteúdo antigo e encheu até a boca com o líquido preto. Bebeu sem disfarçar uma careta:

– Ugh! O café está ótimo. Quem fez?

Pousou o copinho na mesa, onde permaneceria, esquecido por semanas, até ser encontrado pelos oficiais de segurança da seguradora; e chamou os seus técnicos para as deliberações do dia:

– Bom dia, amigos. Vamos às nossas ordens. [coçou a nuca] Na madrugada dessa noite as operações de escavação nesse sítio foram interrompidas pelo sistema automático de segurança. Pelo que entendeu Lilion, o magnetoscópio de prospecção profunda recebeu uma perturbação acima dos limites e desativou os motores dos dentes de primeira linha. O Controle Arqueológico foi informado e já mandou um transporte com uma equipe especializada de Oxia Palus. Deverão chegar em uns três dias, ou mais, dependendo do clima…

Todos comemoraram. Até a chegada da equipe, nada precisaria ser feito, pois sem operação, não há monitoramento; e sem monitoramento, só há o ócio, para muitos, pouco criativo. Quer dizer, todos, menos Ftjelzon, o técnico que ainda dedilhava as páginas do livro. Sem largar o livro, ergueu o nariz em direção a Miel e perguntou:

– E o que tem lá embaixo, senhor?

– Muito obrigado por perguntar, Ftjelzon. Muito obrigado por parecer minimamente interessado com o nosso trabalho por aqui… [tossiu] Ao que parece, os sensores desenharam uma estrutura topográfica com ângulos inusitados para a geologia local e como sabemos, há uma possibilidade de serem ruínas como as que foram encontradas em Oxia Palus e Eridania.

– Só que maior, muito, muito maior – acrescentou Lilion.

Miel censurou-o com um olhar. Lilion ignorou.

– Quanto maior, senhor? – insistiu Ftjelzon

Os outros técnicos já ignoravam quaisquer novas informações e combinavam campeonatos, sonecas e passeios até os bares dos postos avançados mais próximos.

Miel não queria responder.

Lilion hesitou, mas a novidade não cabia em seu peito. Sua formação paralela em paleontologia o fazia tratar do assunto com excesso de excitação. Fjlezon farejou isso logo que o técnico entrou no módulo, minutos antes, agitado e carregando pilhas de folhas amarrotadas com planos de reorientação para o ângulo de descida das brocas secundárias nas valas.

– Bem… 1,618 quilômetros de disco horizontal por…

Os outros técnicos somente se calaram. Ftjelzon arregalou os olhos. Entregou o livro de economia para um dos companheiros e foi em direção a Lilion, interrompendo-o com pesadas mãos sobre seus ombros:

– Largura exatamente em Fi? E em quilômetros? Lilion, conte o que sabe, vamos!

Miel ergueu a mão para intervir, porque não queria que Ftjelzon fizesse exatamente o que iria fazer se soubesse dos outros detalhes sórdidos obtidos pelas sondas, os mesmos que pediu que Lilion ocultasse do grupo a qualquer custo. Mas o amigo tinha a língua maior que a boca e não conseguiu manter segredo. E acabou contando tudo, e pior, olhando diretamente para Ftjelzon, como em desafio: – Já que insiste, Ftjelzon, a estrutura que determinou a parada automática das máquinas tem a forma de um ovo gigantesco, atravessado por complexos de câmaras interligadas por galerias. Por conta de perturbações magnéticas, não conseguimos boas leituras do espectrógrafo, mas… Posso contar, senhor?

(Trecho de Elementar, Trezena, 2015)